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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

 

COMO VIVIÁMOS?

       Por acaso, alguém tem ideia de como foi viver no século vinte, quer dizer após o meu nascimento, isso  nos anos cinquenta, antes, com meus avós e pais, eu não faço a menor ideia, e sei de algumas coisas que a minha mãe contou, segundo ela, apesar de muita pobreza e sofrimento, tanto ela, como papai estudaram, aliás a minha mãe mesmo com pouco estudo foi professora sabiam? E com ela aprendemos muitas coisas, porém, com muitos filhos, a coitada não tinha mais tempo, então uma prima passou a ser nossa professora.

Aliás, nossa mãe era muito prendada, ela mesmo fazia nossas roupas, não me pregunto como, mas ela tinha uma máquina de pé, na verdade, a nossa mãe nunca foi uma boa cozinheira, mas dava pro gasto.

Coitada, casou com 19 anos e gravida, isso no ano de 1947, bem levadinha, naquela época já aprontando, risos, bom Papai foi mais safadinho, mas graças a Deus, eles se casaram, sete messes depois, nasceu minha primeira irmã, Tereza, mas não é, que onze meses depois, já teve outra filha, depois mais um , sei que ao todos fomos treze filhos.

Eu nasci em 1952, mas quando eu fiz dez anos, minhas irmãs mais velhas, elas, já tinha ido estudar na cidade de Itapetim, morando com nossa avó paterna, menos a segunda filha, tadinha ela morreu com três meses de vida, então eu passei ajudar minha mãe em tudo, ajudando com meus irmãos mais novos, botando água, dos açudes ou tanques para abastecer a casa, lavando roupa, buscando lenha pra cozinhar, enfim, eu era pau pra toda obra.

Se eu reclamava? Não, nunca tive preguiça, e não é que ainda tinha tempo pra estudar no sitio mesmo, e, brincar, mas quando era férias das minhas irmãs, Bernadete(Deta) vinha pro sitio,  Tereza, nem sonhando vinha, daí, a minha mãe me deixava ficar uma semana na casa de uma tia em outro sitio, por nome Barra do vieira, as vezes, o meu tio nos levava a Desterro a cidade mais próxima ao sitio deles.

Então com minhas duas primas, uma da minha idade, a outra mais nova, nós  nos divertíamos e aprontávamos muito, e, escondido da minha tia, tomávamos banho em rios, cachoeira e porque não, amávamos desafiar o perigo, apesar de já sabermos nadar, mas erámos crianças, com certeza, sozinhas era perigoso, no sitio delas  existia mais casas, e até uma capela( igrejinha) existia. 

Então até quinze anos, mesmo depois de estar estudando em Itapetim, gostava de ficar dias no sitio dessa minha tia.

Gente! Apesar do sofrimento, éramos felizes, agora até hoje, eu me pergunto, meu Deus! Coitados de nós, como foi difícil fazer nossas necessidades no mato e limpar com sabugo de milho, ou folha do mato, era dureza, hoje qualquer coisa se pega uma infecção nas partes intimas, e, pobre de nós, com certeza, Deus nos protegia.

O banho quando chovia, geralmente era nas lagoas, ou açudes, depois cuia, gente! foi uma vida de luta e sacrifício, mesmo que reclamasse, porque, e a quem? Nós não tínhamos outra alternativa, Papai sempre correu atrás, apesar de sermos muitos filhos, até mistura tinha, obvio, bem pouca, mãe torrava carne de vaca,  junto com toucinho de porco, e assim comia feijão com farinha, de mandioca ou milho, batata doce, ou jerimum,(Abobora) quando a carne, acabava sempre tinha toucinho e rapadura, nos dias de domingo, mãe matava um frango, e, se tinha arroz, fazia o tal arroz de festa.

No café da manhã fuba com açúcar, farinha de castanha, final de semana, mãe fazia bolo branco, graças a Deus tinha umas vacas,  leite dificilmente faltava, ai pra jantar era coalhada, batata doce, ou jerimum com leite, foi uma época de luta, principalmente para nossos pais, mas criança se acostuma com tudo, sem contar que a gente nem fazia ideia se existia outras comidas, ou pessoas vivendo diferente.

Roupas, não sei de onde, mãe tirava os panos de chita, daí fazia nossas roupas, as calcinhas ela também fazia, era uma lindeza, chinelos, um pra cada, só usávamos quando íamos a cidade, tínhamos uma roupinha, para ir a cidade, no sitio, nós andávamos descalço, ainda assim éramos animados, felizes e achávamos tudo bom.

Era muito engraçado, mesmo nos faltando tudo e mais um pouco, agente era conformados, a casa não tinha moveis, na cozinha um fogão a lenha, um armário improvisado com tijolos e tabua, onde mãe guardava algumas panelas, a maioria de barro, alguns pratos de alumínios e colher, sim, tinha xícaras, ai tinha uma maquinha de moer milho.

Nossa mãe, fez uma mesa bem rustica, com pau e uma tabua velha para finalizar a mesa, existia sim tamboretes, (banquinhos) e muitos potes, onde se guardava águas para tudo, nós todos, dormimos em rede e sim, tinha a cama de mãe, e, outra num quartinho onde mal cabia a cama de solteirão e uma mala do tempo do ronco, obvio, o colchão de capim, pinicando a gente, mas a maioria dormiam em redes.

Eu sei que apesar de tudo, nós éramos alegre e felizes, pois é minha gente, mãe, sozinha  nos criou, papai coitado, ele vivia em outros estados trabalhando sabes lá do que, coitado, para  sustentar aquela renca de filhos, se eles foram bons pais? Sim, não digo que eram os pais mais carinhosos, mas faziam sua parte, nos protegendo e se esforçando para que nos tornássemos pessoas do bem, e nos dar o essencial, agora se papai fazia questão, era que estudássemos, é tanto que todos nós nunca ficamos sem estudar.

E como o tempo foi passado, e, ele ganhando um pouco melhor, fez questão que mesmo nós, como eu e Erasmo, fossemos estudar na cidade, mesmo indo e voltando, à medida que fomos crescendo, fomos nos adaptando a tudo, claro, que depois que eu passei estudar na cidade, comecei ver as coisas um pouco diferente, e, já não gostava tanto do sitio, mas fazer o que?

Pois é, essa história foi um pouco do que vivi, com medo, sofrimento, resignação, mas sonhos e esperanças que  algum dia, nós teríamos uma vida melhor, mas eu me pergunto, alguém imaginou que alguém viveria assim? vocês acham que isso foi verdade? Que seria assim a vida no século vinte? Continua..

 Joana Dar N de Araújo A Ferreira.        

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