VIDA BOA COM SIMPLESCIDADE.
Quem viveu no século vinte foi feliz? Na sua opinião existiu algo de bom? Bom, eu falo por mim, fui feliz, eu explico, o povo era menos exigente e se conformava com pouco, obvio! já existia o orgulho, arrogância, prepotência e pessoas querendo ser melhores uns do que o outro, só que era menos explicito.
Infelizmente sempre existiu essa diferença, o pior, muitas vezes não me pergunto porque, mas quem menos tinha, aliás, até o que comer, vivia com o nariz em pé e querendo pisar nos mais humildes, apesar de já ter contado, eu resolvi falar de como vivemos porque tem entrado muita gente no blog.
Pois é meus amigos, eu nasci num sitio, quando comecei ir mais a pequena cidade de Itapetim Pernambuco, sentia a diferença, no sitio era inocência, pobreza e falta até do essencial, mas quem disse que vivíamos tristes?
Eu sempre sonhei
acordada, e, com doze anos uma vez na
vida outra na morte, mãe nos levava pra pequena cidade de Itapetim Pernambuco,
lá eu me sentia um peixe fora d´água.
Já no sitio, eu amava tudo e me sentia livre, eu
adorava subir em pedras altíssimas, lá eu ficava sentada no lugar mais alto e
imaginando, o que será que existe, aonde meus olhos não podem veem?
Na verdade, eu era uma sonhadora e desde criança
conversava com Deus, na minha inocência Deus me respondia, quer dizer, sentia
sua mão sem rosto me tocando, eu aprendi nadar com seis anos, e nadando, em
rios açudes, ou lagoas, eu me sentia livre e me vinha a mesma pergunta, será
que existe outro mundo, e, gente por ai?
Com doze anos, eu passei a estudar na cidade, estudava
na parte da tarde, ia eu e meu irmão, num cavalo, na verdade, o mais cavalo era
meu irmão, ele galopava tanto que as vezes eu gritava o tempo todo com medo,
mas adiantava?
O pior era minha aparência, como no sitio fazia de
tudo, como lavar roupa nos rios ou lagoas, ia buscar lenha para cozinhar, isso
as vezes um sol tão ardido que doía, meu nariz, era tão vermelho, mas parecia
de um palhaço, apesar de na época nunca ter visto palhaço, mas eu escutava as
crianças falando, obvio! Quando passei estudar na cidade, como era uma matuta do
sitio, para as crianças da cidade, era motivo de piada e muitos me achava esquisita,
como elas me deixavam triste.
Quando eu fiz treze anos, no final de 1965 foi a
inauguração da luz elétrica em Itapetim Pernambuco, nossa, mas parecia viver um
sonho, tanta gente, eu com um vestidinho lindo, minha mãe quem fez, foi meu
primeiro tubinho com um pano, chamado pele de ovo, eu era feinha, mas já tinha
um corpinho de mocinha, nesse dia namorei com um menino bem bonitinho, mas que
namoro? Só nos olhava, mas era divertido, ai ainda com treze, no carnaval de
1966 fui a um baile de carnaval em Itapetim, fiquei feito um dois de pau,
olhando o povo pular.
Apesar de ajudar muito a minha mãe na parte da manhã,
como acordávamos com as galinhas, dava tempo, e, cedinho ia pegar água para
abastecer a casa, isso numa lata de dez litro e colocando a lata na cabeça
sozinha, daí ia lavar toda roupa da casa, quando não era dia de lavar roupa,
era buscar lenha e varrer os terreiros (Quintal) meia dia e meia, ia com o
cavalo, em cima do outro cavalo, para cidade e na escola servir de mangosa (Mangar)
risos, pelas crianças da cidade.
Graças a Deus, como existe os maus, dois meninos e uma
menina fizeram amizade comigo, mesmo com minha feiura, ai apareceu uma prima
vindo de Patos, ai sim tudo melhorou, e as vezes ela ia pro sitio comigo a pé,
assim evitava de eu ir com meu irmão cavalo.
Daí com catorze anos, as vezes ficava na cidade na
casa da minha avó materna, isso foi até quinze anos, ai a minha avozinha
morreu, e daí mais uma vez minha mãe engravidou, e, como papai já estava
ganhando melhor, detalhe trabalhando em outros estados, alugou uma casa na
cidade, e, lá vamos nós sofrer, no sitio tínhamos frutas, legumes muitas outras
coisas, na cidade foi difícil, ai como a casa da minha avó, não morava ninguém,
papai resolveu comprar, foi pagando os
herdeiros aos pouco, finalmente a casa era nossa, isso no centro da cidade, e que
casa!
Não tinha como ser pior, feia, as portas e janelas cheias
de buraco, agora feio pra cachorro era o maldito banheiro, quer dizer latrina,
bem mais humilhante que fazer coco no mato, credo! Uma casinha, dentro um
quadrado com um buraco pra fazemos as necessidades,
meus amigos tinha que ficar de cócoras, vendo a hora cair no buraco negro, sim
minha gente, os banhos de cuia, agora o mais triste, era ir buscar água na única
barragem que existia, isso para abastecer toda cidade.
No sitio ninguém nos via, mas como morávamos no
centro, mesmo indo por trás da rua, no beco(viela) que existia, andávamos um pouco pela rua, passava ao lado da igreja,
então muita gente nos via, com vergonha, acordávamos quatro da manhã, para
encher todos os potes, duas vezes por semana íamos a mesma barragem lavar as
roupas, outro sofrimento, se não fossemos quatro da manhã, não encontrávamos um
lugar perto da água.
Já existia carroceiros que por dinheiro abastecia as
casas, mas e daí? Mãe não tinha, eu juro não esquentava, mas as minhas irmãs, tinha
vergonha de tudo, aliás até pra fazer os mandados, se eu não fosse ninguém comia um pão, tem mais, aguardem.
Joana Darc N de Araújo A Ferreira
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